“Foi na cara e na coragem”. É assim que Miriam Brezolin, de 59 anos, resume sua ida para Dublin, na Irlanda. Gaúcha de Santa Maria, local da tragédia que é lembrada até hoje que culminou com a morte de dezenas de jovens, na Boate Kiss, Miriam tomou coragem no ano passado e incentivada por uma sobrinha moradora de Dublin e motivada também pela crise econômica do Brasil decidiu arrumar as malas e embarcar. Formada em educação física e em técnica agropecuária pela Federal de Santa Maria, Miriam era empresária no Brasil e viveu situações que a fizeram crescer muito como pessoa nestes quase 12 meses em que está vivendo no seu novo país.  

“No Brasil tive várias empresas, sempre bem administradas, de confecção de roupas, de restaurantes chinês e italiano, tive uma floricultura e telemarketing e lá se foram 35 anos de muita luta e trabalho. Agora, a fase é de aprendizado. De proprietária a funcionária, eu costumo comentar.  Aqui já trabalhei em floricultura, hotel e, no momento, em função da pandemia, estudando muito e recebendo a ajuda do governo local. Um dos meus projetos é a inscrição em alguma fazenda de orgânicos para trabalho voluntário para conviver com famílias e ter mais contato com a natureza”, conta ela.

Com a sobrinha Bárbara, grande incentivadora de Miriam

Miriam fala que precisou sair da chamada e já batida “zona de conforto”.  Ela diz que sempre fala das suas histórias para outras pessoas para incentivar outros brasileiros a viajarem. “Viajamos, erramos e aprendemos com os erros. É normal. As pessoas precisam viajar mais, se arriscar mais. A dica é não ter medo, é viver o ‘frio’ na barriga a cada embarque e desembarque. Por aqui, por exemplo, logo que cheguei, entrei no ônibus que ia para a Irlanda do Norte e não sabia como pagar. Meu inglês era muito fraco no início. Não entendia o que o motorista falava, eu queria pagar em euro, com cartão e nada dele aceitar. Viajei mais de duas horas e no final sai de graça, sem pagar, porque ele acabou não cobrando. Depois fiquei sabendo que precisava ter pago em libra.  A gente erra e aprende e depois acaba dando risada disso tudo”.

“O primeiro passo é o mais difícil e lamento não ter começado antes essa aventura, descobri que o medo somos nós mesmos que nos impomos. Medo de arriscar, mas aí descobre- se que tudo na vida pode ser resolvido”.

Miriam tem dupla nacionalidade. É brasileira e italiana e isso também pesou na hora de viajar para a Irlanda.   “Era para ter vindo e ficado só um mês e já vou para quase um ano”. Ela diz que não teve dificuldades para se acostumar ao clima da Ilha. “Como sou do Sul e lá temos temperaturas extremas de calor e frio, não tive estranhamentos. Lido bem com sol, chuva, chuva e frio, chuva e calor, chuva e muiiitooooooo frio e chuva de novo, assim é Dublin. Minha maior dificuldade é enfrentar o idioma, destravar o ‘english’, falando muito pouco, mas consigo entender bastante. Aos poucos sinto-me mais familiarizada com a pronúncia, porque o accent deles é outra língua. Outra dificuldade inicial é em fazer amizades, ou melhor, conviver com pessoas da minha faixa etária, embora residam muitos brasileiros aqui, na maioria jovens, mas sempre solícitos para te ajudar. A Irlanda é um país seguro e isso faz a diferença. Posso andar sozinha pela noite, mesmo as ruas estando desertas. Isso é um privilégio, então, caminho muito, em qualquer horário, aproveitando cada momento, é um deleite. Outra questão é o custo de vida, a valorização da moeda. Para se ter ideia, com 30 euros consigo fazer compras no mercado para os sete dias da semana”.

Ela comenta que os “irish” são educadíssimos, tem o hábito de sempre cumprimentar. “Quando sabem que sou brasileira se valem do nosso idioma para as saudações. Mas nada se compara ao nosso espírito brasileiro, somos diferentes sempre, em qualquer lugar, somos alegres, cantantes, trabalhadores. Amo dizer: i am brazilian. E, como mencionei no início, a gente viaja, sai da zona de conforto, com erros podemos rir de nós mesmos. Tenho muitas saudades do meu filho, da família, dos amigos. Esse é o preço que se paga. Falta, sim, um colo amigo, um abraço bemmmm apertado de um amigo e dizer tudo o que sente e até o que não se sente. Claro, com uma pint gelada pra acompanhar. Agora, não tenho planos a longo prazo. Mas com muita expectativa para a chegada do meu filho e nora aqui na Irlanda. Com eles próximos, a ideia de família tornará esse período melhor. A mim, não resta dúvidas, os meus limites dependem da minha vontade e esforço. Temos um mundão para viver e explorar e eu me sinto encorajada para tudo isso. O primeiro passo é o mais difícil e lamento não ter começado antes essa aventura, descobri que o medo somos nós mesmos que nos impomos. Medo de arriscar, mas aí descobre- se que tudo na vida pode ser resolvido”.

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