terapia online

Por Hugo Ramon Barbosa Oddone*, Cristiane Calvo** e Dorival Alonso Júnior***

 

A terapia online chegava no Brasil há uns quinze anos. E chegou muito mal vista, despertando preocupações, principalmente em referência aos aspectos éticos, levantando críticas quanto à confidencialidade, sigilo, questões referentes à identidade dos pacientes e terapeutas. Também era preocupação comum questões relativas a situações emergenciais, assim como aos papéis desempenhados na rede e aspectos legais quanto à jurisdição e a regulamentação do exercício profissional. O exercício dos terapeutas nesta nova modalidade psicoterapêutica é uma questão ainda atual.

Entretanto, um dos efeitos mais poderosos no campo da Psicologia produzido pela Pandemia da Covid-19 foi o ajustamento, bem criativo, por sinal, proposto pelos pioneiros desta modalidade de terapia. Este enquadre tornou-se uma necessidade. Até mesmo para os psicólogos clínicos que resistiam bravamente a sua prática. E parece que esta forma de se praticar a psicoterapia veio, assim – veni, vidi, vici –, feito um César, para reinar, daqui em diante.

A psicoterapia online é benéfica?

Os benefícios da psicoterapia online estão relacionados à conveniência, viabilidade e com questões sanitárias decorrentes da pandemia – Covid-19. É importante lembrar que o recurso online por plataformas da internet é apenas mais uma forma de comunicação. Assim, levantamos alguns dos benefícios deste formato, descritos a seguir.

Disponibilidade quase imediata dos psicoterapeutas sem necessidade de deslocamento, nem do profissional, nem do cliente.

O terapeuta deixou de se dirigir ao seu consultório. Ele passou a trabalhar num espaço, que se tornou sagrado, montado na própria casa. Por outro lado, o paciente não precisa enfrentar trânsito e lutar contra o relógio para comparecer na hora marcada.  Neste sentido, parece que o momento de mergulhar no interior de si mesmo envolve apenas a questão de combinar a hora com o terapeuta, pois o lugar é onde você está, desde que possa ter um pouco de privacidade e há muitas facilidades para realizar a sessão.

Costuma ser uma terapia mais em conta, financeiramente.

Está se praticando uma flexibilização e um ajustamento gradual para chegar a valores mais acessíveis e, desse jeito, ficar mais acessível à população que, independente da condição socioeconômica, pode beneficiar-se da terapia. Entretanto, nas grandes capitais, os valores tendem a permanecer mais altos, pois estão definidos pelos índices mais elevados das tabelas, enquanto que, no interior, os valores propostos são determinados por uma maior oferta de serviços e portanto, mais acessíveis. A existência de muitos serviços oferecidos na cidade leva a uma flutuação em torno dos índices inferiores da tabela de honorários sugerida pelo Conselho Federal de Psicologia. Há também que se considerar a economia no transporte até o consultório e outras despesas que costumam estar associadas ao deslocamento físico.

A maioria da clientela parece preferir a comunicação online por ser mais confortável.

O principal motivo é a exposição menor. No entanto, pela tela do celular ou do notebook, o profissional só terá acesso ao rosto e à parte superior do corpo (vestimenta da cintura para cima). A exposição limitada parece mais confortável ao cliente, podendo tal situação permanecer à serviço de sua neurose, dificultando sua conscientização e expressão. A maioria das pessoas estão apresentando maneiras novas de expressar seu eu interior, algumas decididamente são tímidas ou envergonhadas. Esta forma de terapia, paradoxalmente, embora esteja a serviço da não exposição, possibilita o treino facilitador de novas formas de expressão física, verbal, etc.

A consulta pode ocorrer fora do horário comercial padrão e ser realizada em qualquer ponto do país, ou mesmo fora do país.

Os horários ficam mais flexíveis, podemos esticar os horários tradicionalmente convencionados (das 08:00 às 17:00 horas) para mais cedo ou para o período noturno, inclusive aos feriados. Já que o conceito da semana de trabalho e o fim de semana para lazer ficaram completamente modificados e flexibilizados pelos novos esquemas criados ou ajustados pela pandemia.

E quais seriam os inconvenientes desta modalidade ou possíveis desvantagens?

No ponto exposto anteriormente, há um fator relevante em desfavor do profissional, ou melhor, do trabalhador autônomo, pois a disponibilidade gera implicações em sua vida na medida em que o tempo de trabalho estende-se e não há limites definidos para início e término. A rotina deixa de ser estruturada e o psicólogo permanece alerta a qualquer hora, o que acarreta um desgaste maior em todos os sentidos.

Embora a terapia online apresente vários benefícios, ela ainda possui outras desvantagens, que estão elencadas a seguir.

  1. Diagnóstico. Há muitos críticos desta abordagem que manifestam preocupação com a capacidade de um terapeuta avaliar adequadamente a situação clínica de um paciente à distância, sem um contato próximo, sem poder ter acesso ao que o corpo fala, gestos, atitudes (forma de se apresentar e apertar a mão, por exemplo) ou mesmo às vestimentas e seus hábitos de higiene. Também é importante observar a forma do sujeito se comportar, ou seja, as máscaras sociais que ele usa fora do ambiente doméstico. Na terapia online perde-se em grande medida o contato com estes traços ou indicadores operacionais.
  2. Falhas na tecnologia. As falhas de conexão na internet acontecem frequentemente, dependendo do lugar onde terapeuta ou paciente moram. Pode-se perder a conexão, o celular acabar a bateria, o que pode ser um grande limitador quando há a interrupção do relato do paciente no ápice emocional de sua fala.
  3. Comunicação escrita. Por fim, quando não há o uso de câmeras ou áudio, a digitação também apresenta prejuízos, sendo que geralmente demoramos mais tempo para digitar do que para falar e ainda assim este formato dificulta a interação e a presença em sua totalidade.

Sobre as plataformas digitais utilizadas, um mercado em franco crescimento, é preciso dizer que continuam apresentando vantagens e desvantagens na forma da interação, conforme enumeramos abaixo.

  • Terapia via câmera de transmissão – via celular ou notebook (WhatsApp, Skype, Zoom, Teams ou Meet) – atraso da imagem transmitida, interrupção na comunicação por falhas de conexão.
  • Digitação pelo celular (WhatsApp), outro meio ou através de correspondências pelo e-mail – tal formato prejudica a apresentação da pessoa em sua totalidade e pode ser utilizada para transmitir uma informação de maneira parcial.
  • Gravação de áudios pelo celular ou Messenger – as desvantagens são as mesmas do item anterior.
  • Ademais, o uso das comunicações em redes sociais: Instagram, Telegram, Facebook podem comprometer a psicoterapia, pois o processo anteriormente se daria de forma sigilosa, num ambiente privado, sem exposição e participação de terceiros.
  • Sobre a faixa etária, sabemos que clientes mais idosos não conseguem lidar com a Internet com a mesma desenvoltura dos mais novos.

Aspectos que envolvem a ampla faixa etária dos clientes serão desenvolvidos a seguir.

  • Terapia infantil: esta modalidade se caracteriza prioritariamente pela ludicidade. A terapia funciona através dos jogos e a criança apresenta os dados apreendidos em sua realidade através dos insights e percepções relativas à situação em que vive no meio social, na família ou na escola. Este tipo de terapia, tanto presencial quanto na modalidade online, precisa de autorização dos pais (até os 18 anos de idade), por termo de consentimento, o que pode ser feito por e-mail transmitido ao profissional.
  • Adolescentes: esta geração poderá se beneficiar com este formato de terapia, pois já cresceu junto às tecnologias virtuais e considera este o seu meio de comunicação por excelência. Adolescentes, crianças e jovens de até 30 anos de idade poderão encontrar na terapia online uma maneira propícia de trabalhar seus conflitos.
  • Meia idade – dos 30 anos até 60 anos: esta é a turma mais pragmática, pode se acomodar à nova tecnologia terapêutica e ao novo formato, entretanto, é a turma que cobrará e esperará maior eficácia da terapia online. Se a terapia online não oferecer um resultado positivo, os pacientes poderão abandonar facilmente o processo por não acreditar na sua eficiência.
  • Mais de 60: talvez seja a turma mais afetada pela mudança, pois pode indicar maior resistência para se atualizar com as novas tecnologias, apresentando mais dificuldades para lidar com elas.
  • O distanciamento físico. Uma desvantagem considerável é a própria distância física entre terapeuta e paciente. Um fato que se aprendeu, se desenvolveu e se trabalhou em todas as formas de terapia é o acolhimento físico, emocional e presencial do terapeuta, que transmite esta energia de muitas formas. Na terapia online ainda precisamos aprender a ancorar este acolhimento que oferecerá a segurança inicial aos clientes, principalmente àqueles que mais precisam de reforço e de uma relação pautada em confiança.

Mudanças na conceituação do que é normal e do novo (a)normal.

Juntamente com a mudança do enquadre de uma terapia presencial em consultório para uma terapia online faz-se necessária a atualização de conceitos tanto nas questões teóricas que modelam o trabalho terapêutico, quanto na mudança de valores sociopsicológicos dos novos tempos que modificam seriamente o que entendemos por psicopatologia, como também mudarão severamente as técnicas e o contexto de trabalho a ser desenvolvido.

Como terapeutas cognitivo-comportamentais, psicodramatistas, psicanalistas, Gestalt-terapeutas e outras abordagens irão lidar com as novidades impostas por esta nova e obrigatória forma de trabalho, que é o atendimento online, à distância?

Qual o principal foco de mudança para cada abordagem terapêutica?

E qual o efeito para o que o paciente realmente precisa ou espera?

A terapia online fica quase que totalmente verbal.

A palavra falada torna-se fundamental na medida em que ela traduz de uma forma radical a importância daquilo que quer se comunicar. Embora em uma comunicação presencial a palavra seja um dos signos em meio a uma miríade de signos que o paciente comunica ou precisa comunicar, o terapeuta deve saber diferenciar ou dar o peso necessário para cada um dos signos daquilo que chega para ele. E esta comunicação, quando se limita ao exclusivamente verbal na terapia online, baseada na palavra falada e ouvida, é a que se prioriza.

Em outro sentido, a palavra fica absolutamente transcendental. E a magia do encontro físico, presencial, o olho no olho, não acontece. Por outro lado, no atendimento presencial, costuma-se utilizar a máscara protetora, um artefato que pode ser um limitador da expressão facial.

Na terapia gestáltica, o terapeuta frequentemente descreve – mentalmente – o que enxerga e analisa do contexto do encontro, principalmente a leitura dos signos: o que ele vê, ouve, contata; figura e fundo, o que é e seu contexto geográfico, pessoal, afetivo, relacional, social, sagrado, etc. O terapeuta descreve detalhadamente, ainda que para si mesmo, cada expressão, baseado na observação do campo que o paciente ocupa, sem que ele ou ela fale nada. Assim, em primeiro lugar a) temos um sujeito que traz consigo um fundo histórico, de certa forma inconsciente, mas que motiva e estimula o paciente, apresentando a nós, no aqui e agora, um sujeito com suas feridas e vulnerabilidades éticas; b) também temos um sujeito que fala, se apresenta a si mesmo, agora já no aqui-e-agora factual, e vemos um terapeuta focado em cada um dos gestos, posições do corpo, lugar que ocupa na sala, o jeito de sentar, a atitude corporal e principalmente o que ele fala, todos signos que acontecem no aqui e agora do consultório, e, dessa forma, vai  se des-cobrindo traços, desejos, dificuldades na realização destes desejos, em suma, as vulnerabilidades políticas do paciente e como ele lida com elas. E temos o c), uma terceira forma de estar presente no aqui e agora, como uma espécie de somatória de ambas observações, que nos apresenta uma “fotografia” personalizada do paciente, um corte transversal na vida do sujeito, como um raio X psicológico, e que, na verdade mostra-nos as vulnerabilidades antropológicas.

Na terapia online, não contamos mais com essa riqueza de detalhes que o paciente nos apresenta, antes de emitir qualquer discurso verbal sobre suas queixas. Na maioria das vezes, tudo isso é um a priori. Assim, na terapia online precisamos procurar por outros sinais que devemos aprender a perceber na ligação telefônica, no contato virtual e que nos ajude a compreender melhor a comunicação mais profunda do nosso paciente, um método que deverá cada vez mais ser conhecido, pesquisado, apreendido, por nós.

 

Referências Bibliográficas

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Clínicas Gestálticas: sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus Editorial, 2012.

PERLS, Laura – apud GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: a terapia do contato. São Paulo: Editora Summus, 1993.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: o processo grupal. São Paulo: Editora Summus, 1997.

ODDONE, H. R. B. Aspectos éticos, políticos e antropológicos da identidade do docente hospitalar de crianças gravemente doentes.  Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015, p. 268-294. Disponível em: http://www.igt.psc.br/ojs . Acesso: 30/09/2020..

 

 

Autores:

 

* Hugo Ramón Barbosa Oddone

CRP 06-23702. Psicólogo pela Faculdade de Filosofía y Ciencias Humanas de la Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción”, de Paraguai e pela Universidade de São Paulo (USP), no Brasil. Especializado em Psicoterapia dos Processos Grupais e em Terapia de Casal e Família na Abordagem Gestáltica. Mestre e Doutor em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência, pela UNIFESP (Campus Guarulhos). Coordena o IGT Riopretense (Instituto de Gestalt-Terapia) que oferece cursos de Especialização e é co-autor e editor de vários livros sobre a abordagem gestáltica. Atende individualmente, casais e famílias em Terapia Online. Contato WhatsApp (17) 99703-7318. É credenciado pelos Planos de saúde CASSI e CABESP. Trabalha em São José do Rio Preto e mora em Bady Bassitt/SP.

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** Cristiane Calvo

CRP 06-54018. Psicóloga pela União das Faculdades do Norte Paulista, São José do Rio Preto – SP. Especializada em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pela USP. Formação em Psicoterapia dos Processos Grupais, Terapia de Casal e Família na Abordagem Gestáltica junto ao Centro Gestáltico de Montevideo, Uruguai. Coautora de livros (Cinema e Ajustamentos Criativos e A Espera de Elen). Atende voluntariamente em Terapia Online. Atua na Vara da Infância e Juventude pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Contato WhatsApp (17) 99783-8180. Trabalha em São José do Rio Preto e mora em Bady Bassitt/SP.

*** Dorival Alonso Junior

Formado em Psicologia. Psicólogo Clinico e Organizacional. Graduado e Pós graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Coach, Mentoring e Holomentor, formado pelo Instituto Holos. Consultor com mais de 25 anos de experiência na área de Recursos Humanos e Psicologia Organizacional. Há 15 anos como docente nos cursos de Graduação e Pós Graduação. Constelador pelo sistema TSFI Terapia Sistêmica Fenomenológica Integrativa. Coordena o IGT Rio-pretense (Instituto de Gestalt-Terapia) que oferece cursos de Especialização. Atendimento clinico em São José do Rio Preto/SP e Fronteira/MG, de família, casal e individual (crianças, jovens e adultos). Contato: (17) 99745-9500.

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Site: www.orith.com.br / www.tsfibrasil.com.br

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